abril 22, 2017

Luxemburgo - Bayonne - Portalegre

Primeira viagem a cinco e, surpresa!, não vou dizer que foi um sucesso. Aproveitámos as férias da Páscoa para trazer o pequeno Augusto a conhecer a família e os amigos. Procurei os bilhetes de avião para os cinco demasiado perto da data e enfim, o preço andava na casa dos quatro dígitos, o que nos facilitou a decisão de virmos de carro.

Nós, os adultos, gostamos de fazer viagens longas e também de conduzir, por isso a ideia de viajar durante dois dias não nos incomoda. Só que não nos podemos esquecer que agora temos três crianças a viajar conosco, todas com diferentes necessidades de atenção e formas de satisfazer as necessidades básicas. Mesmo os planos pensados com alguma antecipação (livros de autocolantes, filmes para durar alguns dias de viagem, comida) não foram suficientes para conter tanta frustração e acalmar os ânimos quando mais foi necessário.

Somemos a isto um GPS que escolheu um caminho errado sem que nós nos apercebêssemos (digamos que duas horas para apenas contornar Paris estavam muito longe dos nossos planos...), um bebé cheio de fome e muito calor em pleno engarrafamento, uma miúda birrenta e muito cansada e é coisa para explodir a qualquer momento. Apenas se aproveitou o mais velho, que praticamente fica hipnotizado assim que começa um filme ou um episódio de animação e que quase não abriu a boca durante dois dias de viagem! Claro que precisámos parar mais vezes do que tínhamos idealizado e assim, em vez das 10 horas de viagem que o GPS previa para o primeiro dia, acabaram por ser 14 horas. Chegámos ao hotel perto das 9 da noite e éramos apenas dois farrapos humanos adultos e três crianças a precisarem de colo, comida e de uma cama ASAP.

O segundo dia de viagem é sempre mais fácil: são menos quilómetros, trânsito quase inexistente nas auto-estradas espanholas, a meteorologia a ajudar, a perspectiva de chegar ao nosso país a cada quilómetro que fazemos. Longe vão os tempos em que o Vicente via qualquer casa ou prédio no horizonte e perguntava se era a casa dos avós, não importa em que país... Já conhecemos as estações de serviço e sabemos onde podemos almoçar aquelas tapas marotas. Há sempre aquela emoção sempre que numa placa se lê Portugal e a satisfação de entrar pela fronteira em Valência de Alcântara, com Marvão ao fundo e a serra de São Mamede a separar-nos de Portalegre.

Para as pessoas que nos acharam corajosos: não é bem isso. Já aqui disse que os bilhetes de avião eram proibitivos (e será cada vez mais assim, já que dois dos miúdos já pagam bilhete inteiro), portanto era mesmo um caso de falta de alternativa. Além disso, três filhos depois, acho que estamos mais prontos para estes testes de esforço e somos capazes de ignorar birras durante um período mais longo. É preciso dizer que não pude controlar as lágrimas quando estávamos parados nos subúrbios de Paris, o bebé chorava de calor e de fome (tínhamos saído do Luxemburgo com 3 graus e, de repente, estavam 26...), a miúda estava cansada e a precisar também dormir (o que só aconteceu umas 10 horas depois...) e, apesar do engarrafamento gigante, não dava para sair do carro. Apetecia-me fugir, apetecia-me gritar impropérios contra todos os condutores que entupiam a auto-estrada e apenas me restou respirar fundo e rezar em silêncio por uma área de serviço para acalmar as hostes.

All in all, acho que saímos mais fortes destas experiências. Ou pelo menos, se a nossa sanidade mental sair intocada destas horas dentro de um carro, acho que seremos capazes de tudo!

março 19, 2017

(não está fácil...)

Acima de tudo, quero escrever este post para poder lê-lo mais tarde e rir-me do tempo em que achava que não ia aguentar. Já sei que não há outro remédio: aguentamos e pronto.

O pequeno Augusto comemora hoje dois meses de vida. Simultaneamente, penso como o tempo passou incrivelmente depressa e como estes dois meses me parecem uma eternidade. É difícil tratar de um recém-nascido mas para mim foi ainda mais difícil tratar deste que chegou antes do tempo. Nas primeiras semanas, já se sabe, a rotina era basicamente mamar e dormir, sem grande períodos desperto. Depois, começou a manter os olhinhos abertos mais ums minutos e eu e o pai tivemos mesmo direito a um sorrisinho cada (que resolveu aquela pressão de saber se já tinha dobrado o riso). Mas com o passar do tempo, o pequeno Augusto foi sofrendo mais e mais de cólicas (ou da incapacidade de deixar sair todo o gás que tem dentro) e tudo culminou na noite de ontem: cinco horas a pé, das duas às sete da manhã, a tentar aliviá-lo, quase sempre sem sucesso. Dorme aos bocadinhos, às vezes nem tem os olhos bem fechados, contorce-se com dores, está aflito. E aflita estou eu, que ao terceiro filho continuo sem ter a solução mágica para este mal e sem perceber os outros bebés a quem os intestinos nunca afligiram. Sinto um alívio gigantesco quando vejo começar o dia e tenho assistido muitas vezes ao nascer do Sol. Na minha cabeça, o mantra é This too shall pass mas, mesmo sabendo que estas dores não duram para sempre e que já dois dos meus filhos lhes sobreviveram, está difícil desligar disto e não passar os dias apenas a tentar sobreviver.

A pequena Amália também não está a ajudar, certamente por ter perdido o estatuto de bebé da família. É carinhosa com o bebé mas nunca sabe quando parar, precisamos estar constantemente a lembrá-la de que deve deixar a cabeça do irmão. Como se não bastasse um bebé a precisar de muito colo e atenção, ela resolveu elevar as suas birras a um nível completamente irracional e só muita cabeça fria (ora minha, ora do pai) nos tem impedido de enlouquecer de vez. Chegamos o fim do dia exaustos só de nos certificarmos que não faz só asneiras. Para compensar, disse o nome do irmão bebé pela primeira vez esta semana, o que me faz pensar que (lentamente) está a aceitar a ideia de que ele veio para ficar. Alterna estes momentos de loucura total (uma birra na semana passada, enquanto tinha cá os tios, consumiu-lhe todas as forças e fê-la soluçar profundamente mesmo quando dormia...) com a doçura daqueles olhos, com as perguntas que dispara a toda a velocidade, com as ocasiões em que se calça e improvisa uma mala e diz XAU, enquanto finge que vai sair.

Safa-se o mais velho e mesmo assim à rasca. É o que menos reclama tempo de antena mas sei que às vezes lhe faz falta. Vale-lhe ter passado sozinho conosco os quatro primeiros anos da sua vida e ter sido alvo único da nossa atenção durante esse tempo. Vai ajudando como pode, mesmo que seja um grande cabeça no ar. Sonha com futebol, vive para o futebol. Conta-me todos os lances em que participou quando não vou aos treinos. Imagina os golos que vai marcar antes de cada jogo de Sábado. Mas continua a ser capaz de se sentar no sofá em silêncio com um ou dois livros. Ou de fazer um puzzle a meias com o pai. Ou de ver as notícias encostadinho a mim.

Eu sei que tudo vai melhorar. Eu sei que as noites hão-de estabilizar e as dores de barriga darão lugar às dores de dentes e estas a outras dores de crescimento. Mas por agora preciso de me lembrar frequentemente que vou ser capaz. Preciso de não me comparar com aquelas pessoas que sigo nas redes sociais e que parecem ter tudo controlado. Preciso de lembrar-me que a culpa não é do meu leite. Mas também me fazia falta chorar com alguém de fora, alguém que não saiba quão longos e difíceis têm sido os nossos dias aqui. E por isso choro aqui, metaforicamente falando. Para que daqui a um ano o Facebook me lembre deste post e eu sorria, tranquilamente ou dê uma gargalhada sonora por me lembrar do difícil que era. Por agora, isto não está fácil e não há quantidade nenhuma de café que me valha.

março 04, 2017

E quando os nossos filhos não são os melhores?

Como vos contei neste post, o senhor Vicente agora é federado e representa este clube de futebol. Significa isto que o acompanhamos duas vezes por semana aos treinos e que ele vai participar este Sábado pela primeira vez num jogo a sério. Para mim, é muito emocionante ver como ele se interessa por uma actividade por iniciativa própria; para ele, é a loucura total aprender a jogar futebol e participar num campeonato verdadeiro. Nunca nos preocupámos muito em inscrevê-lo em actividades extra-curriculares, especialmente porque achamos que a escola aqui já proporciona actividades interessantes (saídas para a floresta/natação/trampolim/desporto/ateliers de pintura, construção e faz de conta). Em casa, normalmente, apenas estimulamos a leitura e o jogo livre mas o futebol é bem vindo porque chegou naturalmente e na hora certa.

Mas esta semana fiquei meio horrorizada com a atitude de dois pais que acompanhavam também o treino. Ambos estavam desapontados com a prestação dos miúdos, que pareciam não estar à altura das suas expectativas. Um deles gritava "És um zero à esquerda! Estás a fazer de propósito? Chutaste sete vezes à figura do guarda-redes! O que é que esperas alcançar com isso? Vou filmar-te a falhar para que possas depois ver o que estás a fazer!". O miúdo não terá mais de sete anos, como o Vicente.

Eu compreendo que todos queiramos que os nosso filhos tenham sucesso e sejam os melhores naquilo que fazem. Mas sujeitar uma criança a estes níveis de exigência, a esta pressão, especialmente em público, não é para mim. Acredito em deixar as crianças serem crianças e aceito se os meus filhos não forem excelentes em tudo o que querem fazer. Mas quero que eles possam escolher as suas actividades, fazer exercício físico, compreender os conceitos de disciplina, equipa e preserverança sem nunca se sentirem um falhanço. Especialmente quando esse falhanço é apenas o resultado de expectativas demasiado altas  não deles mesmos, mas dos pais. Aquilo que assisti esta semana deixou-me incomodada. Não quero julgar as aspirações daquele pai mas de certeza que não quero aquilo para o meu filho, que é, neste momento, um novato nas coisas do futebol e já tem dificuldades em escutar as instruções do treinador, quanto mais em controlar a bola ou acertar um passe.

Não há mal nenhum estimular as crianças a serem as melhores, é apenas natural. É evidente que eu não parto para qualquer actividade contente se os meus filhos forem medíocres. Mas faço o esforço de separar a realidade dos meus desejos. E acredito que devidamente estimulados, esse desejo de serem os melhores tornar-se-á natural, inseparável da sua maneira de encararem os desafios, saudável forma de se tornarem pessoas melhores. Mesmo que no começo sejam zeros à esquerda, especialmente nesse caso.



março 03, 2017

Um primeiro mês agitado

A razão da minha ausência é muito simples: tenho-me concentrado num recém nascido que começou por apenas mamar e dormir e passou depois a incluir também cólicas ou dores de barriga.

Em parte, e como já suspeitava, a transição de dois para três filhos não é nada drástica. Já praticávamos uma ginástica de distribuição de tarefas e de bom aproveitamento do (pouco) tempo que temos e continuamos com a maioria das rotinas que tínhamos antes. A diferença é que o bebé ainda exige que me concentre exclusivamente nele (principalmente quando são horas da amamentação que, apesar de correr muito bem, é sempre uma pequena luta entre nós os dois) e isso causa algum desequilíbrio se o pai não está. Sei que é uma situação passageira e que assim que passarmos o quarto trimestre (este período em que o bebé ainda devia estar no conforto da barriga da mãe) provavelmente as coisas vão melhorar. Por enquanto, levo as coisas na base da reacção e tento apagar os fogos o melhor que posso (acudir à pequena a meio da noite com o bebé na mama, por exemplo, implica uma certa ginástica...).

A amamentação, já o disse, vai bastante bem mas deu pano para mangas. Sendo ele um bebé prematuro, estava sujeito a horários rígidos de alimentação enquanto estava na unidade de neonatologia - de quatro em quatro horas em ponto, uma quantidad3e de leite pré-estabelecida. Quando pôde ir para casa, as instruções eram basicamente as mesmas, apenas com o conselho de deixar o biberon e passar apenas à amamentação directa. Na primeira consulta de seguimento com a parteira, ficou claro que o peso do Augusto não tinha aumentado muito mas que devia continuar a evitar o biberon. Depois, seguiu-se uma consulta com a pediatra que foi um balde de água fria: a médica achava-o desidratado, ainda com icterícia e com um ganho de peso muito fraco. Eu sabia que ele não tinha aumentado muito mas achava que estaria longe de desidratado mas se a médica o dizia, quem era eu para discordar? Saí da consulta desolada, sem perceber se estava a fazer a coisa certa e muito desmoralizada por, aparentemente, não estar a ler bem os sinais do meu bebé. 

Mas nesse mesmo dia, umas horas mais tarde, tive a segunda consulta com a parteira, a quem contei o que se passara e a quem expliquei as minhas dúvidas. Sentia-me ridícula: afinal, ao terceiro filho, esta mãe não percebia nada do assunto de manter um bebé vivo e em boas condições de saúde? Depois de examinar o bebé e de o ver a mamar, a parteira achou que a pediatra talvez tivesse exagerado e que, principalmente, não existiam sinais de subnutrição. Depois de muitos conselhos, deixou-me a frase que me manteve à tona nos dias seguintes: confie em si mesma e confie no seu bebé, ambos sabem o que é melhor. E foi isso que eu fiz porque o meu instinto maternal assim o ditava. E o resultado foi que, no espaço de uma semana, o bebé aumentou quatrocentos gramas, muito acima dos normais cento e vinte, cento e cinquenta. Às vezes a nossa intuição está certa mas precisamos de um empurrão do exterior para poder validá-la e é muito importante encontrar este apoio, quer na família ou nos profissionais, como foi o caso. Fiquei impressionada com a quantidade e diversidade de ajuda que existe para as mães que desejem amamentar: desde consultantes de aleitamento ainda no hospital, ao seguimento porterior pelas parteiras, à facilidade em alugar uma bomba para extrair o leite nos primeiros tempos. O que me deixou um pouco desorientada (verti mesmo umas lágrimas, confesso...) foram as opiniões profissionais tão diferentes (equipa de neonatologia vs. pediatra vs. parteira). Valeu ouvir aquela voz interior e optar por segui-la sem medos.

É natural que os meus dias agora se resumam à interação com cada um dos nossos filhos (embora consiga incluir neles as mil tarefas domésticas e algum tempo de lazer Há noites em que consigo mesmo ler um par de páginas!). Aguentem os cavalos, a emissão volta ao normal dentro de momentos.


fevereiro 06, 2017

Nascer antes do tempo

Quando eu dizia que sentia que este bebé não chegaria às quarenta semanas de gravidez, não esperava que chegasse tão cedo. Uma coisa é ler histórias de bebés prematuros ou até mesmo conhecer quem tenha passado por isso mas ninguém nos prepara para um embate assim.

Antes de mais, devo dizer que o nascimento do Augusto não foi um caso extremo de prematuridade: afinal, ele já contava trinta e cinco semanas de gestação, estava mais ou menos pronto a nascer, tinha um peso muito aceitável. Não se pareceu, por isso, com os casos mais dramáticos de bebés prematuros que às vezes vemos. Ele não corria perigo de vida mas o protocolo do hospital obriga a que todos os bebés nascidos antes das trinta e seis semanas passem directamente da sala de parto para o serviço de neonatologia.

Esse foi o primeiro choque: eu tinha acabado de dar à luz um bebé que parecia saudável (um índice Apgar de 9) mas alguém entra na sala para o levar numa incubadora. Tive apenas direito a uns segundos de pele a pele, o bebé não pôde mamar - só tive tempo de lhe dar um beijo e deixei de o ver. Naquele momento, e apesar de me terem avisado logo quando dei entrada no hospital, atingiu-me um sentimento de perda gigantesco: se eu tinha dado à luz um bebé, por que raio estava agora sozinha na sala do recobro? Depois, talvez por falta de organização da maternidade ou talvez porque o protocolo assim o exija, esperei quase oito horas para poder rever o meu filho. As horas passavam e ninguém me vinha buscar para me ensinar o caminho até à neonatologia, o que só aconteceu quando o pai e os irmãos chegaram para a visita. Eu estava já perto de desesperada: sem voz, extenuada, a sentir que me tinham roubado tempo precioso com o meu bebé.

Como nos outros partos, sentia-me bem o suficiente para andar pelo meu próprio pé. Deve ser aquela adrenalina do parto normal, toda eu cheia da sensação de que posso tudo, dividida entre o orgulho de ter trazido um ser humano ao Mundo e do cansaço a que isso obriga. Com uma auxiliar, entrei pela primeira vez no serviço de neonatologia pelo meu pé e o meu coração caiu quando vi o meu bebé numa incubadora. Não sei o que esperava ver, para ser honesta. Não estava entubado, tinha apenas um cateter na mãozinha e eléctrodos que lhe monitorizavam os batimentos cardíacos, a saturação do oxigénio, a respiração. Era o meu bebé, ligado a máquinas, que às vezes disparavam em alarmes assustadores mas que garantiam a sua vigilância próxima. Ao terceiro dia, ele pôde sair da incubadora e ficou apenas numa cama aquecida, já que o seu estado de saúde evoluía satisfatoriamente.

Os meus dias passaram a ser um vaivém constante entre o meu quarto para comer, tomar banho e extrair leite e a neonatologia, onde tratava do meu bebé sempre que possível. Esta distância implicou que a amamentação tenha ficado para segundo plano mas apesar disso o leite materno é tudo o que o tem feito crescer. Durante aquela semana, ele bebia quantidades pré-estipuladas de leite a horas também previamente estabelecidas, sem qualquer possibilidade de livre demanda, como aconteceu com os dois irmãos. Ainda não desistimos de mudar isso mas temos precisado de ajuda e de uns shots de confiança externos.

O bebé Augusto está a crescer bem e num instante recuperou o peso de nascença. Ainda é muito pequenino (completaria hoje trinta e oito semanas de gestação), pouco mais faz do que comer e dormir. Mas é muito amado pela família, tem dois irmãos que querem sempre estar perto dele e faz as delícias das pessoas que espreitam para o nosso carrinho. Agora, é tempo de crescer cá fora. O pior já ficou para trás.

janeiro 21, 2017

Crónica de um nascimento não anunciado

Quando disse, várias vezes, que este bebé havia de chegar antes da data prevista, não estava a contar com toda esta antecipação. A meio da trigésima quinta semana, ainda a cinco longas semanas do fim, o nosso terceiro filho, Augusto de seu nome, decidiu que tinha chegado a altura de nascer!

Foi quinta de madrugada que acordei com aquele acontecimento inequívoco que é a ruptura das águas e que, em pânico e muita, muita negação (não pode ser, ainda não pode ser, isto não pode acontecer...), confirmei que o melhor era começar a ir para o hospital. Só tinha começado a fazer a mala: a criança ainda não tinha roupa escolhida, eu não tinha nada à parte de um par de chinelos e à pressa, sem conseguir racionalizar ou seguir a lista à risca, tentei meter lá dentro tudo o que podia. Depois foi acordar os miúdos, enfiar-lhes um casaco, um gorro e explica o que estava a acontecer, enquanto lhes garantia que regressariam à cama num instante. Estar assim longe significa que não tínhamos ninguém que nos ficasse com eles e por isso fomos (ainda) os quatro para a maternidade. Assim que me deixaram na entrada de urgência, puderam voltar a cama e dormir.

Para mim (e para o menino Augusto) a noite tinha apenas começado. Poupo-vos, evidentemente, aos pormenores sórdidos e digo apenas que, dadas as circunstâncias (ruptura das águas à trigésima quinta semana de gestação), o diagnóstico era muito simples: só voltaria a sair do hospital quando o bebé nascesse, quer isso significasse as horas, dias ou até semanas seguintes - tudo dependeria do estado do bebé. Só havia um pequenino problema: eu começara a sentir contracções bastante fortes e cada vez mais frequentes que os monitores não documentavam e por isso ninguém achava que o parto estava iminente! Cinco horas a sofrer em silêncio para não acordar a minha companheira de quarto, tentando respirar mais fundo possível e imaginando-me a surfar as contracções como se pudesse aliviar-me na crista da onda.

Já era dia quando implorei pelo alívio da dor e me levaram para a sala de partos. Mesmo desejando outro parto totalmente natural, não pude resistir à epidural, dada por um médico sem maneiras nem um pingo de humanidade mas que me serviu para aguentar o que se seguiu. Menos de uma hora e meia após a minha entrada na sala de partos, nasceu o Augusto, um rapaz como sempre suspeitara desde o início, a chegar ao Mundo num dia de céu totalmente limpo e temperaturas bem negativas.

Há todo um outro post à espera de ser escrito, desta vez sobre a prematuridade mas que deixarei para mais tarde. Agora, enquanto escrevo este, olho para aquele corpo frágil mas valente dentro da incubadora - são horas de treinar a amamentação. Aliviada mas ainda não completamente feliz - talvez amanhã, se ele deixar a incubadora, possamos finalmente estar juntos a cinco.

janeiro 11, 2017

Vicente joga à bola


Um breve disclaimer: aqui em casa gosta-se de futebol moderamente. É conhecida a divisão clubística: eu do Benfica, o marido do Sporting. Mas como nenhum de nós liga verdadeiramente a futebol, a nossa convivência desportiva é bastante saudável. Não acompanhamos o campeonato mais do que o estritamente necessário, não conhecemos os jogadores das nossas próprias equipas e só vibramos realmente com os jogos da selecção. 

Isto pode ajudar a explicar a admiração que senti quando comecei a perceber que o miúdo respira futebol, sonha com futebol, não quer fazer nada senão praticar futebol. Quer ver os resumos de todos os jogos, conhece os nomes dos jogadores, festeja sempre que vê imagens do golo do Éder neste Verão, copia os gestos do Ronaldo. Continua a gostar de outras actividades e entusiasma-se com muitas coisas (ainda ontem com um rato morto que encontrou no passeio quinzenal da escola ao bosque...) mas, in the end, ele gosta é de bola. Gostava mais que ele se inclinasse para a natação ou para um instrumento musical, por exemplo, mas ele gosta de futebol e ser mãe significa isto mesmo: deixar para trás as aspirações que temos para eles e aceitar os seus gostos, apreciar a sua personalidade sem tentar moldá-los à nossa imagem.

Por isso, chegou finalmente a altura de passar à acção e ontem acompanhámo-lo ao seu primeiro treino a sério no clube aqui do bairro ou da comuna. Dois dias por semana (agora apenas um, devido ao mau tempo) treina com outros miúdos (escusado será dizer que há algumas camisolas da selecção portuguesa e há um ou outro Ronaldo...), vai passar a ser federado e, correndo tudo bem, há.de jogar no campeonato local na categoria de Bambini. Levei-o ao treino, ajudei-o com os atacadores dos ténis que ainda não sabe atar, vesti-lhe o equipamento que o tio lhe comprou pelos anos. E ele entrou em campo e correu muito, tentou fazer os exercícios o melhor que pôde, olhou vezes demais para nós nas bancadas, acenando e chamando por nós, e depois não marcou nenhum golo. Enquanto lá estive a vê-lo, não consegui disfarçar a alegria de vê-lo a fazer aquilo de que gosta, a gastar energias, a seguir instrucções. Ele estava muito feliz, eu estava ainda mais. Pelo menos até ele regressar a casa e começar num pranto porque não marcou nenhum golo na partida que fizeram a seguir. Teve que haver pep talk e explicar-lhe que o Ronaldo também não marca em todos os jogos e que não existem só avançados numa equipa, os defesas, por exemplo, também fazem muita falta.

Portanto, estamos já na fase das necessidades de afirmação e de pertença, deixando para trás as necessidades básicas que ficam, por enquanto, reservadas para a irmã. Nunca insistimos em nenhuma actividade extra-curricular e em casa instigamos apenas à leitura e às brincadeiras com Lego mas abraçamos com força esta primeira manifestação de real vontade própria. E agora só espero que ele vá marcando uns golos ou que encontre o seu lugar na equipa ou então tenho de preparar uns quantos discursos diferentes para lhe aliviar a frustração. E, quem sabe, ainda nos sai dali um craque e eu torno-me na próxima dona Dolores...

janeiro 03, 2017

Trinta e três semanas (em esforço)

Sei que todas temos experiências diferentes mas para mim chegava-me passar por apenas uma gravidez. Na primeira vez, é tudo uma novidade, é tudo uma emoção, fazem-se videos e fotografias, balança-se entre o terror da responsabilidade que aí vem e a incrível sensação de ter gerado vida. Não quer dizer que não existam desconfortos mas para mim estes foram abafados pela gigante tempestade emocional que era vier a ser mãe. À segunda, já muitas coisas parecem dispensáveis. À terceira, então, nem comento.

Da mesma maneira que não fui bafejada com a sorte de ter filhos que dormem bem, também não pude saber o que significa a expressão gravidez santa. Desta vez, os enjoos foram terríveis mas felizmente pararam cerca das treze semanas (parece mesmo que o meu corpo sabe quando termina o primeiro trimestre). Depois seguiu-se um período de vigor, de tranquilidade e de ausência de qualquer desconforto. Sentia que estava a abrandar, algumas subidas já me custavam mas nada que não pudesse ignorar.

E agora a recta final. Entrada ontem nas trinta e três semanas de gravidez, já há muito que não acho piada a isto. Dores de ossos todos os dias, não importa se me sento, deito ou estou de pé; ataques massivos de azia, especialmente durante a noite, capazes de me fazerem chorar; cãimbras nas pernas que me deixam efectivamente a chorar por evitar pedir ajuda; uma constante falta de ar, especialmente depois das refeições, cortesia de um bebé que já está na boa posição mas que insiste em esmagar-me todos os orgãos que consegue; uma constipação que persiste e para a qual não tomo nada, que concorre com as outras causas que não me deixam dormir. Segundo a ciência, o bebé já está pronto, só está apenas a receber os últimos retoques. Eu cá estou mais do que pronta e a única coisa que me alivia o desconforto é saber que esta é a última vez na vida que vou passar por isso. Se eu vier aqui daqui a uns tempos dizer como tenho saudades deste tempo, por favor lembrem-me de que estava a escrever este post procurando, simultaneamente, a melhor posição para conseguir respirar.

E de repente caio em mim e lembro-me que faltam apenas seis semanas para passar a ser mãe de três e ainda me sinto surpreendida de isto me ir acontecer, logo a mim, que nunca me imaginei mãe de mais do que dois. Apesar de preferir trabalhar até ao fim da gravidez e ter mais tempo depois do nascimento, agradeço silenciosamente a lei luxemburguesa que nos manda para casa dois meses antes do parto.É certo que o trabalho me iria distrair muito mas passar oito horas sentada em frente a um computador daria cabo do que resta da minha bacia. Sei que estas últimas semanas fazem falta mas por mim ficávamos já por aqui.

dezembro 30, 2016

2016, em jeito de balanço


Já o disse noutras redes sociais e repito-o também aqui: 2016 foi um bom ano para mim. Para mim, é fácil distinguir entre os acontecimentos que marcaram o ano mas que não me dizem respeito directamente e aquilo que vivi nos últimos doze meses. Não confundo as mortes de actores, músicos e outras figuras públicas com a minha vida quotidiana. É claro que senti também as perdas (umas mais que outras, é mesmo assim) mas acho que são o resultado também da passagem do tempo e é mais do que certo que os próximos anos não serão muito diferentes: afinal, não somos só nós - os nossos ídolos, modelos e heróis também estão a envelhecer.

Parece mentira que foi em Janeiro deste ano que regressei ao trabalho depois de quase um ano de licença de maternidade: sinto-me como se tivesse trabalhado bem mais do que isso, agora que já voltei a casa para mais uns meses de descanso. Profissionalmente, comecei o ano a pensar em alternativas, a sentir que não iria aguentar aquela pressão muito mais tempo. Mas felizmente resolvi dar tempo ao tempo e esperei por Março, mês em que a empresa voltou a ser independente e todos pudemos finalmente respirar. Percebi que não me sinto confortável a ser uma pequena peça de uma gigante engrenagem e que é mais fácil sentir-me motivada e trabalhar melhor num ambiente mais restrito. Apliquei-me a sério, acho que desenvolvi  outras capacidades igualmente importantes mas não directamente ligadas com a minha posição, tentei ser útil e abracei com toda a força a equipa em que já trabalhava. Foi um excelente ano de trabalho.

Pessoalmente a coisa não se ficou atrás. É bem verdade que tenho uma filha quase com dois anos que ainda não dorme a noite inteira (ainda hoje tive que me levantar três vezes...) mas concluo que o corpo se habitua a tudo, inclusivamente a menos e menos horas de sono. Em Junho, percebemos que vinha aí o terceiro filho, ideia que ainda me fascina tanto quanto me amedronta: eu acho que a verdadeira revolução é quando passamos de um para dois filhos mas estou pronta para mudar de ideias. À terceira gravidez, já nada é novidade, o entusiasmo das pessoas é praticamente nulo (ainda este fim de semana nos perguntaram se não temos televisão em casa... :) ), há dois filhos cá fora a pedir colo e atenção, os enjoos e as dores de ossos já há muito que perderam a graça. Mas a ideia de sermos cinco, a projecção da casa cheia (e da loucura que vai ser a gritaria destes três...) fazem-me sorrir. O mais velho continua com os seus problemas de audição selectiva mas também muito meigo e curioso, sempre a pensar no que o rodeia. Está a experimentar a ler sozinho, faz perguntas atrás de perguntas, demonstra a sua crescente maturidade. O rebento do meio faz-nos perder as estribeiras: o raio da miúda não faz nada do que lhe pedimos, não tem ainda qualquer noção do perigo, fala muito pouco mas entende tudo, não estranha ninguém. Dormir à noite ou fora de uma cama não é com ela mas está lentamente a aprender a dar abraços e a demonstrar as suas afeições.

Viajámos bastante (fui cinco vezes a Portugal, visitámos Berlim e Estugarda, descobrimos o Lichstenstein, a Lombardia em Itália, o Mont Blanc em França, regressámos claro a Bruxelas e eu a Barcelona). Com a chegada iminente do bebé, não antevemos viagens maiores (do género intercontinental) para os próximos tempos mas sabemos que esta nossa localização nos deixa sonhar com outros países europeus. Celebrámos quatro anos de casados e sete anos juntos e não foi fácil, como não o são as relações tão complexas e profundas mas seguimos em frente com todo o Amor. Vi algumas relações falharem e isso deixa-me sempre a pensar: tenho sempre medo que a nossa seja a próxima. Mas somos todos pessoas diferentes e a viver dinâmicas diferentes. Eu decidi não prometer nada a mim mesma - apenas lutar sempre pelo homem que mais me compreende, que mais me aprecia, a quem mais admiro. Mesmo nos dias em que não nos saem duas palavras agradáveis da boca, especialmente nesses dias.

Como é costume, desejo a todos os leitores deste blog (caso eles ainda existam e onde quer que me leiam) um óptimo Ano Novo! Que possamos continuar em paz, ajudar os outros sempre que nos for possível, viver consciente e civilizadamente, apreciar as coisas simples e boas da vida, ter a cabeça no aqui e agora. Todos os dias acontecem coisas suficientes para nos lembrar daquilo que é verdadeiramente importante. A miséria, a pobreza e a destruição são hoje omnipresentes, façamos o que pudermos para combatê-las. Não se levem demasiado a sério, não guardem rancores desnecessários, não sejam demasiado radicais - tudo conselhos que que tenciono seguir também. E amem muito, mesmo que esse Amor se tenha de transformar vezes sem conta até chegarem à sua versão mais pura e cândida. Até 2017!

dezembro 27, 2016

Férias, Natal, licença de maternidade - exactamente por esta ordem!

Ora bem, aqui vamos nós outra vez. Reparei, quando abri o Blogger, que já passou mais de um mês desde a minha última publicação e sei que já há muito tempo que não me permitia uma ausência tão prolongada. Mas meteu-se a vida pelo meio e pronto, não houve muito tempo para me sentar em qualquer lado a escrever. Ainda estou aqui, é o que tenho a declarar.

Entrei de férias no início do mês mas não tive oportunidade de gozar os parcos dias de férias. Tanto por fazer antes de preparar as malas para Portugal e o blog foi ficando para trás. Deixei o trabalho com muita pena porque finalmente senti que estava no meu sítio, a ver os resultados do meu esforço e persistência, mais integrada do que nunca. Mas saí tranquila porque deixei as coisas nas mãos de alguém capaz e que me inspira confiança - garanti que posso descansar durante os próximos meses.

Depois foi Portugal. Dias cheios, dias sem compromissos, dias com alguma tristeza, mar e rio em doses generosas, um céu quase sempre azul, daquele azul que só se encontra ali, peixe grelhado, mil folhas e pastéis de nata, boleimas e as azevias da minha avó mesmo no final. Prendas para os miúdos, a cara do mais velho em êxtase, enquanto a pequena quase lhes passou indiferente, os amigos que mesmo assim pudemos beijar, a família que tanta falta nos faz. Para mim foi especialmente importante ter alguém a tomar conta de mim, agora que se aproxima o momento em que vou ter mais alguém a depender do meu instinto e das minhas forças. Pude receber o amor pelo bebé que completou ontem as 32 semanas na minha barriga e que, não tarda, se vem juntar aos irmãos.

E agora o descanso. A licença de maternidade começou precisamente ontem (dois meses antes da data estimada do parto), dia em que voltámos a aterrar no Luxemburgo. As manhãs podem voltar a fazer-se longas, o frio pode gelar tudo lá fora, a pressa fica definitivamente para trás porque agora apenas há que manter este bebé no quentinho até ao fim. Tenho uma lista de coisas que quero fazer antes do nascimento (serei eu capaz de tricotar um cobertor para o meu terceiro bebé?) e de coisas que preciso mesmo de fazer (quem nos manda ter janelas tão grandes?), tenho algum tempo para ler e para vegetar em frente à televisão, terei silêncio antes do grande abalo (assim que os mais velhos regressarem às escolas). Mas continuo aqui, fazendo o balanço do ano que passou, preparando-me para os meses que aí vêm e que prometem ser incríveis. Mesmo que não pareça. ainda aqui estou.

novembro 24, 2016

Às vezes somos só três

Os dias estão cada vez mais curtos. Saímos os três de casa ainda é noite e entramos quando já não se vê um palmo à frente. De manhã, aquele vento frio que quase corta, o vizinho que sai com a primeira roupa que lhe apareceu à frente para ir buscar o jornal à caixa do correio, Moien, saluda ele, para depois seguir o diálogo em Luxemburguês com o mais velho. Já viu o frio?, arrisca ele para mim em Francês e lá nos começamos a lamentar daquilo que não é nenhuma surpresa aqui: caminhamos a passos largos para o Inverno e faz frio. À tarde, os corvos que começam a escolher em que telhado vão pernoitar, vultos negros que se confundem com o céu da mesma cor, a pequena agitada, virando a cabeça para tentar acompanhá-los, dizendo adeus, até amanhã passarinhos.

Noites há em que somos apenas o três até ao jantar. Birras, fomes, vontades de brincar, sopas de abóbora e tartes de atum por fazer, a roupa que ficou por passar no fim de semana - tudo compete pela minha atenção. Ganham sempre eles e eu permito-me respirar quando os enfio aos dois na banheira, ela voluntariamente, ele quase sempre à força, que agora tudo é razão para fazer valer a sua vontade. Dias em que a minha capacidade de negociação é brilhante, a minha organização impecável, a paciência infinita. Dias em que choram os dois assim que entram em casa, o banho também é passado a chorar, querem comer mas não querem comer, há molho por todo o lado. Comum apenas o momento em que se deitam e em que, com sorte, me posso sentar em silêncio. Com o pai é quase o mesmo mas há mais dois braços para dar aquele colo que faz falta.

Móveis, paredes, caixilhos das portas, sofás - a nossa casa é a tela dela. Tudo o que ele não pintou nesta idade, ela está a fazer o favor de pintar. Bolas, balões, chuteiras, aquele gesto que o Ronaldo faz quando marca um golo - é aquilo que o interessa ultimamente. Não que não consiga sentar-se a ler um livro, sozinho, em silêncio, por sua iniciativa. Mas normalmente isso apenas acontece quando lhe pedimos, pela enésima vez, para não jogar à bola em casa. Ele, a querer colocar a louça na máquina, a querer cozinhar e lavar a louça, a pedir apenas para ajudar. Ela a dançar enquanto descasco a abóbora para a sopa, desafiando-me, Jamie XX a encher a cozinha e ela a mexer as ancas como o pato Donald.

Nos dias bons, ela adormece cedo e ele sobe comigo. Os dois no sofá, partilhando uma manta, ele nos momentos mimosos, Mãe quero estar ao pé de ti para sempre, falamos das profissões dos membros da família, do Gordo e da guerra, de agradecer pelo que temos e às vezes sobre a morte. Chora quando pensa que eu vou morrer e ele vai deixar de ter mãe. Eu explico que ele nunca deixará de ter mãe mas luto para não chorar quando penso que um dia os vou deixar sozinhos. Ele lendo as legendas, aprendendo a juntar as letras em voz alta, enquanto tenta deitar-se sobre as minhas pernas. Com sorte, ela dorme profundamente quando o levo para o quarto e não dá pela nossa entrada. Ele pede-me que o acorde de manhã, mesmo sabendo que vamos brigar como fazemos todos os dias.

Ao pé da nossa vida, todas as coisas parecem perder o significado. Faço um esforço por ter a cabeça no momento e saborear a sério estes dias em que eles crescem sem se ver. Tento esquecer que me canso durante o dia e que me começa a doer a bacia e que já não encontro posição garantidamente boa para dormir e pergunto-lhe como correu o dia e abraço-a quando a vejo exausta. Sei que muitas vezes podia fazer melhor mas o meu compromisso é com o aqui e o agora, um fim de tarde de cada vez, enquanto somos apenas três.

novembro 19, 2016

Dias para esquecer (mas também para lembrar) para sempre

O Vicente foi ontem operado. Nada de grave, totalmente programado mas apenas com um senão: era obrigatória a anestesia geral. Quando a médica nos disse, na primeira consulta, perguntámos se não existia alternativa, já que ele é tão pequeno - não existe.

Embora a operação não fosse complicada e fosse parte questão de saúde, parte estética, a ideia de ter um miúdo de seis anos debaixo de uma anestesia geral foi difícil de aceitar. A médica garantiu-nos que era um procedimento corrente no hospital, que todo o corpo clínico é (evidentemente) devidamente qualificado e até nos descansou dizendo que há uns tempos uma anestesista portuguesa se tinha mudado do hospital Dona Estefânia para a Kannerklink, onde o Vicente ia ser operado. Explicou-nos detalhadamente a intervenção e rapidamente escolhemos a data.

Chegámos ao hospital às sete da manhã, ainda escura como o breu, com a chuva a cair em chicotadas violentas sobre nós e um vento a soprar, selvagem. Chegámos antes da hora mas o quarto já estava pronto e não demorámos a instalarmo-nos. No início da semana, tínhamos visto uma enfermeira e a médica anestesista, que nos explicaram em pormenor como tudo se ia passar e nos deram material para explicar ao Vicente. Lemos com ele um livro criado especialmente criado para explicar às crianças como se processa a anestesia, ele fez muitas perguntas mas compreendeu tudo e estava tranquilo. Ele não teve medo.

Primeiro, um creme anestesiaste na mão para preparar a entrada do cateter; depois, um xarope calmante para controlar a potencial agitação de se ver num meio estranho, rodeado de pessoas estranhas. Um túnel que me pareceu interminável entre a clínica pediátrica e o hospital central, onde fica o bloco operatório. Eu a caminhar ao lado da cama dele, ele já a delirar um pouco e a ver coisas fantásticas em todo o lado. Deixaram-me entrar com ele na sala de recobro, onde esperámos pela anestesista que o levou para a sala de operações. Foi doloroso vê-lo tão alterado, sob o efeito das drogas, calmo mas já planando sobre aquela sala onde se misturavam crianças e adultos à espera e de volta das suas operações. Calhou-nos a rapariga portuguesa, que me tranquilizou e explicou tudo em Português. Deram-me um telefone para poder sair, tomar um café e prometeram que me ligavam assim que ele estivesse de volta ao recobro. Já não havia volta a dar: tive de o deixar sozinho e confiar nas mãos daquelas duas pessoas que empurravam a sua cama. Ele, tão pequenino, agarrado ao seu doudou, sem medo, a beijar-me enquanto me dizia até já. Eu a deixar aquela zona para trás, despindo a bata e engolindo as lágrimas com toda a força que tinha.

Ao todo, esperei por ele uma hora e meia. Bebi um chocolate quente, li bastante e tive sempre o olho em cima daquele pequeno telefone, esperando que ele tocasse o antes possível. Quando me ligaram, apetecia-me chorar outra vez e corri para os elevadores. Na sala de recobro, ligado a monitores e respirando com uma máscara, o meu homenzinho era o filho mais frágil do mundo. Tive que chorar: virei-me de costas para a enfermeira de serviço, senti-lhe o corpo quente e chorei: parecia tão debilitado. Senti-me estúpida, afinal ele estava bem, apenas ainda sob o efeito da anestesia mas não consegui conter os nervos. Pensei em todos os pais que estão assim à cabeceira das camas de hospitais, com miúdos mais novos e mais velhos, a recuperarem de doenças graves e apenas de sustos e agradeci, do fundo do coração, a imensa sorte, a lotaria cósmica de ter dois filhos saudáveis.

Ele acordou de repente mas sabia onde estava. Disse-lhe apenas que tudo tinha terminado e que agora era preciso sossegar. Ele aguentou-se como um valente e só choramingou quando, completamente cheio de sede, percebeu que não podia beber nada imediatamente. As enfermeiras deram-me os parabéns, ele tinha-se portado lindamente. Passámos o resto do dia no hospital para garantir que tudo estava de volta ao lugar certo. E estava, eu tinha o meu badeja de volta <3 p="">

novembro 16, 2016

E agora, sucumbir àquelas teorias de auto-ajuda

Vamos lá a ver: eu sempre desconfiei de todos os livros de auto-ajuda e até mesmo desta nova moda de sessões de coaching. Principalmente porque acho que o que resulta para mim será muito diferente do que resulta para as outras pessoas, mas também porque sempre achei que devia ser eu a ajudar-me a mim mesma. Estão a ver todos aqueles conselhos para ajudar a dormir os bebés? São óptimos e preciosos e incríveis e nunca, mas nunca funcionaram com os meus dois filhos. Com o terceiro, já nem penso neles, acho que estou finalmente vacinada.

Mas a verdade é que na última sessão de formação (aquela de que falei no post passado) recebemos um livrinho muito interessante, com alguns princípios para sermos profissionais melhores. Eu, depois de os ler umas vezes, acho que se trata mais de sermos pessoas melhores e isso sim, interessa-me muito. É claro que neste pequeno livro há muitos princípios com os quais não concordo ou que me parecem desajustados ou desnecessários mas outros há que me parecem simples o suficiente e interessantes o suficiente para os pôr em prática dentro e fora do escritório.

Give honest, sincere appreciation.

Quantas vezes é que nos preocupamos em dizer aos outros o quanto os apreciamos? Falo só por mim, claro: não vezes suficientes. Para mim, este princípio aplica-se mais ao trabalho mas também já o uso em casa. Ainda hoje o usei com dois colegas que se mudaram recentemente para junto da minha equipa e que funcionam tão bem entre si que me apeteceu elogiá-los. E foi isso que fiz. A reacção deles? Um misto de surpresa com uma satisfação tímida, pareceu-me. Isto é especialmente poderoso se elogiarmos qualquer coisa que nem tem a ver conosco mas que apreciamos na mesma. Em casa, tento fazer isso com os miúdos e, ultimamente, com o marido. Têm sido alguns meses um pouco mais nervosos e acho que estamos a precisar de muita apreciação uns pelos outros. E acho que ficamos todos contentes quando este reconhecimento é verbalizado, mesmo que achemos que não é nada de especial. Eu cá fico toda contente quando isto se passa comigo e quando chego a casa só me apetece partilhar o elogio com a minha família, por isso espero que o efeito seja o mesmo com os outros.

Become genuinely interested in other people.

Esta, confesso, é bastante mais difícil. Primeiro, porque todos sabemos que há pessoas mais ou menos interessantes, com as quais comunicamos melhor ou pior. Depois, porque parece que hoje ninguém tem tempo para se interessar por nada que não seja a própria vida. O meu compromisso aqui é um pouco diferente: sinto que tenho de fazer isto mais pela minha família, mas aquela que está longe. Dois mil quilómetros de distância significam que nos concentramos mais no que se passa aqui e agora e tendemos a esquecer o que está longe da vista. As coisas continuam perto do coração, isso nunca mudará, mas as questões mais práticas da vida fazem-me concentrar muito nas nossas vitórias ou nos nossos problemas e esquecer-me que as mesmas coisas se passam longe daqui. De resto, não pretendo interessar-me por todas as pessoas que conheço, até porque sou, no geral, bastante anti-social. Mas isso não quer dizer que não me possa esforçar aqui e ali.

Analyze your own mistakes and criticize yourself (muito ligada a Do the very best you can).

Eu tendo a pensar demais. Tanto é assim que normalmente passo umas horas acordada, a meio da noite, depois da miúda acordar também, sem conseguir voltar a adormecer. Ocupam-me o pensamento as coisas que acontecem no trabalho, quaisquer dificuldades que esteja a sentir no momento em que estamos, contas para pagar, consultas para marcar, um terceiro filho. Mas nestas horas mortas é mesmo o trabalho que se impõe a todos os outros causadores de insónia. Como já escrevi aqui várias vezes, profissionalmente eu quero sempre ser a melhor. Não a melhor que os outros mas a melhor versão de mim mesma que conseguir. Durante este ano que passou, encontrei maneiras de me tornar mais eficiente, tornei-me super organizada no trabalho (mesmo que em casa nem sempre se reflicta esta ordem e disciplina), sei onde está tudo, sei prestar contas de tudo, soube persistir nas coisas que quero que aconteçam. Não fiz tudo isto sem erros e continuo sem estar livre de errar. Mas, ao acreditar sempre que estou a fazer a coisa certa, tenho conseguido bons resultados e tenho recolhido reconhecimento. Preocupa-me mais se o que faço está de acordo com o que acredito do que com o que os outros pensam. Desde que existam factos e evidências, tudo o resto se torna mais fácil.

No meio deste livro, há também outros princípios a que chamo mais de manipulação (como fazer com que os outros aceitem as nossas ideias, principalmente) e menos de ajuda. E é claro que não vivo a pensar naqueles que me falam ao coração. Mas a verdade é que, sempre que os aplico, lembro-me de onde vêm, sinto a satisfação de ver os seus resultados e reconheço o seu valor. Se calhar é a isto que se chama viver mais conscientemente, não sei. A única coisa que eu procuro é viver melhor.

novembro 11, 2016

Fiz 37 anos, o Trump ganhou e o Cohen morreu

Este é o breve resumo da minha vida nestes últimos tempos: fiz trinta e sete anos e senti-me nova e velha ao mesmo tempo; fui a Berlim e a Lisboa matar saudades diferentes e fui gentilmente lembrada que já não tenho fòlego para grandes caminhadas nem para apanhar o avião na porta de embarque mais longe do Mundo; o Trump, enfim, nem preciso de dizer mais nada; morreu mais o Leonard Cohen num ano que toda a gente pensa que não pode piorar mas que piora sempre.

Pelo meio, estive numa formação onde ganhei o Outstading Performance Award e não sei se os meus colegas votaram em mim porque lhes dá pena ver uma miúda quase a rebolar ou se estive mesmo bem durante aqueles dois dias. Seja porque razão for, ganhei uma caneta e planeio assinar muitas coisas importantes com ela. Fizemos muitos exercícios práticos e acho que nenhum me custou tanto como reconhecer o valor dos outros frente a frente. Não porque não ache que os outros têm valor: têm e muito ou muitos e eu sinto-me agradecida por isso. Mas sim porque é muito fácil criticar ou condenar mas é extremamente difícil sentarmo-nos, cara a cara, e dizer o que os outros fazem bem. E decidi que isto deve aplicar-se a toda a gente na minha vida, não só os colegas de trabalho. Por isso, obrigada meus leitores, por se manterem aí (caso ainda aí estejam), mesmo quando o meu blog mudou radicalmente de voz e de conteúdos, mesmo quando às vezes me falta o assunto e me recuso a tratar banalidades, o que resulta em algumas ausências entre posts. Obrigada mesmo aos mais silenciosos, que nunca comentam mas que eu sei que estão aí (ou pensam que não vos vejo?).

Profissionalmente, as coisas correm-me finalmente bem e, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me bem na pele que me foi destinada, com ambições e muita vontade de trabalhar. Este conforto não se paga e tenho a certeza que apenas se consegue quando se têm as melhores pessoas à volta, que nos estimulam e motivam a querer ser melhor. Mesmo por isto, custa-me a ideia de que falta menos de um mês para entrar em licença de maternidade. É claro que não me parece mal a ideia de deixar de trabalhar e reduzir drasticamente a velocidade dos meus dias, mentiria se dissesse o contrário. Mas estou naquele momento em que há muitas coisas boas a prometerem acontecer, começo finalmente a ver resultados do meu trabalho e, acima de tudo, da minha persistência e nas coisas em que acredito e custa-me deixar as coisas exactamente aqui, sem poder controlar o desenrolar das coisas e sem ver verdadeiramente os resultados dos meus esforços. Não posso fazer nada, senão aceitar e esperar que os meus superiores saibam o que fazer. Agarro-me à confiança que sinto neles, respiro fundo e tento lembrar-me que ainda há muita roupa tamanho 50 para lavar, há tardes com sestas que precisam ser dormidas, há arrumações a fazer antes da nossa vida dar a terceira cambalhota.

Depois de trinta e sete anos, continuo sem perceber muitas pessoas (os americanos, por exemplo), começo a perceber outras (a minha pequena filha, por exemplo, que se tem revelado numa pequena tirana em potência) mas conheço-me melhor. Não me importo de falar em público, empenho-me mil por cento em tudo o que faço, só fico contente quando sou a melhor. Tento importar-me pouco com os defeitos dos outros (mas é difícil quando me prejudicam no caminho) e levar as coisas menos a sério - cada vez mais me assustam os radicalismos, seja em que lado da balança for. E acho que vou sendo feliz, o que quer que isso signifique e dure isso o que dure. Agora, só três anos até entrar na quarentena e é rezar que até lá o Trump se transforme numa pessoa de bom coração e que não morram muitos mais heróis.